Discurso - Assinatura de Convênios de Saúde com Municípios e Entidades - 20121106

De Infogov São Paulo
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Transcrição do discurso na Assinatura de Convênios de Saúde com Municípios e Entidades

Local: Capital - Data: 11/06/2012

GOVERNADOR GERALDO ALCKMIN: Boa tarde a todas e a todos. Estimado secretário-chefe da Casa Civil, Sidney Beraldo; professor Giovanni Cerri, secretário de estado da Saúde; deputado federal Vaz de Lima; deputados estaduais, Samuel Moreira, líder do governo; Itamar Borges, coordenador da Frente Parlamentar das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos; Heroilma Soares Tavares; Pedro Tobias; Dr. Ulysses Tassinari; Marcos Martins; Carlos Grana; Dr. Jorge Rato; Orlando Morando; Maria Lúcia Amary; Andréa do Prado; Célia Leão, prefeito Iéia, prefeito de Rancharia. Saudando aqui as prefeitas, os prefeitos, vice-prefeitos, vereadores; o Edson Rogatti, presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do Estado de São Paulo; provedores; representantes de hospitais; amigas e amigos. Uma grande alegria nos reunirmos hoje, aqui, para assinar esses convênios com as prefeituras; que são os nossos melhores parceiros, estão mais perto da população. E ficamos felizes porque esse ano, e o ano passado, já chegamos a R$ 1, 86 bilhão de transferências voluntárias para os municípios, para realizarem obras, serviços públicos em benefício da população, convênios com prefeituras e santas casas e hospitais filantrópicos beneficentes que atendem o SUS. A primeira santa casa do Brasil, é 1.543, é Brás Cubas, Santa Casa de Santos. Essas são entidades centenárias, uma bela herança de Portugal, uma herança lusitana. Dizem que teve em Portugal uma rainha, Século XV, época das grandes navegações, Rainha Leonor de Avis, mulher mais rica da Europa, que foi quem incentivou esse modelo de hospitais beneficentes, as santas casas. E ela dizia que quando morresse, ela está enterrada em um mosteiro em Lisboa, ela queria ser enterrada no local de passagem, para que todos pisassem sobre a sua campa, para lembrar a pequenez das coisas materiais, frente à grandeza da eternidade. É com esse espírito que, no Brasil inteiro, na minha cidade natal, Pindamonhangaba, Santa Casa, 150 anos, estão ali prestando serviço à população. E as coisas pioraram muito, mas muito. Nós vivemos a mais grave crise de financiamento da saúde talvez dos últimos 100 anos. Na década de 70, professor Giovanni, eu era prefeito em Pinda, e médico sempre tem ciumeira, né? Então, Pinda tem uma Santa Casa há mais de 100 anos. Um grupo de médicos resolveu montar um outro hospital, Hospital Pindamonhangaba. Então, tinha a Santa Casa e o outro hospital de um grupo de uns dez médicos. Isso década de 70. Nós, anestesistas, fazíamos anestesia nos dois hospitais. Era um grupo de quatro anestesistas, e a gente cobria a Santa Casa, as cirurgias todas e o Hospital Pinda. Eu era prefeito da cidade, já estava saindo, depois de seis anos, candidato a deputado estadual, sou chamado para fazer uma cirurgia no Hospital Pindamonhangaba, quando chego no hospital tem uma placona assim grande, na entrada assim, do hospital: ‘Os médicos e funcionários deste hospital apoiam o deputado federal fulano de tal’. Tudo da Arena na época. Deputado estadual... E nós éramos do manda brasa. ‘Deputado estadual fulano de tal’. Não tinha nada a ver com Pinda, com Vale do Paraíba, com a região, tudo gente de São Paulo. Aí eu fiquei quieto, achei estranho aquilo, todos amigos, colegas, tal. Entrei, fiz lá a minha anestesia, a hora que eu estou saindo, o colega cirurgião me chamou, falou: “Geraldo, você viu a placa lá fora?”, “Eu vi”, “Não, esquece. Nós não vamos votar em ninguém, mas é o seguinte: se nós não conseguirmos o credenciamento do INAMPS vai fechar o hospital. A nossa salvação para manter o hospital aberto é conseguir o credenciamento do INAMPS. E a gente não consegue. Já fomos lá 100 vezes e não consegue”. Aquele tempo era tudo INAMPS, “Então fomo atrás desses deputados que são ligados ao governo para eles nos credenciarem para gente atender o INPS, o INAMPS”. Olha o que se fazia para poder atender o INPS, o INAMPS. Hoje, mas nem os religiosos com a promessa de ir para o céu querem atender o SUS. Ninguém. É uma coisa impressionante. Por quê? A tabela passou a ser 90%, 80%, 70%, 60%, hoje não chega a 50%. Cada doente que se atende prejuízo em metade. Então quem tem convênio, os 40% de convênio, bancam o prejuízo dos 60% do SUS. Então esses ainda sobrevivem, quem está em uma região rica, que tem convênio. Quem está numa região pobre é SUS com SUS, não tem convênio. Esse quebrou. Lamentavelmente. Então vai... Eu não consigo viajar, que eu chego em uma cidade, a Santa Casa está quebrada, chegou na outra, está devendo R$ 10 milhões, chegou na outra está devendo R$ 15 milhões, chegou na outra: “Vai fechar daqui 30 dias. Vai fechar daqui 60 dias”. Antigamente a gente olhava pesquisa e era assim: cidade pequena, falta de emprego; cidade grande, violência, segurança. Hoje é grande, pequena, mega, pequetica, tudo saúde, primeiro lugar. E saúde é assim, 40%; o segundo é 15%. Pode pegar lá no Amapá, no Oiapoque, e descer até o Rio Grande do Sul no Rio Chuí, vai do Oiapoque ao Chuí. A mais grave crise de financiamento do SUS, e o maior sofrimento da população. E a população ficando mais velha, o Brasil não é mais um país jovem, o Brasil é um país maduro, já está caminhando para ser um país idoso, e demanda uma outra... Mudou. Então, a educação pega São Paulo, 30% em educação, 30%, cada ano tem 2% a menos de aluno, antigamente as mamães tinham sete filhos, oito filhos, hoje tem 1,8, e as mulheres dão a luz depois dos trinta. Então, não tem criança, vai diminuindo, vai diminuindo. Então, o per capta por aluno vai aumentando. Em compensação a saúde vai entrando em colapso. Giovanni já deve ter hoje um déficit de um bilhão, um bilhão de buracos no orçamento. O que vai você vai suplementar, excesso de arrecadação? Não tem excesso de arrecadação, a economia não está crescendo, a indústria vive uma crise, vai cortar de outros lugares, e é o que as prefeituras também estão fazendo. E mais grave, a “empurroterapia”, então vem tudo para São Paulo. Eu estou filmando, a porta do [ininteligível], só ambulâncias de outros estados. A porta do INCOR, a porta do Instituto do Câncer, metade dos transplantes do Brasil vem para São Paulo. Não vem gripe para cá, só vem caso grave, e nós estamos estourando o teto em novecentos milhões por ano, além de pagar pouco, não paga, então todos os anos eu tenho dinheiro do SUS. Rede Lucy Montoro, hospitais nossos do Estado, tudo fora do SUS. Tudo que fizer de novo aqui em São Paulo, um novo leito, uma ampliação, um serviço novo, tudo fora do SUS. Já estourou o teto em novecentos milhões. Então, é grave, porque o teto não é corrigido, a tabela não é corrigida, e nós vamos cada vez em uma situação mais grave. Eu coloco isso porque essa é uma questão nacional, não é nossa aqui de São Paulo, é geral. O Brasil tem problema de gerenciamento? Tem. Mas é pouco, é pouco. Falta dinheiro. O Brasil é um dos países que menos investe em saúde do mundo. É inacreditável, 7% do PIB, mas 3,5% é convênio, é medicina de grupo, é privado. Você tem 3,5% do PIB para quarenta milhões de brasileiros, e 3,5% do PIB para cento e cinquenta milhões de brasileiros. Medicina sofisticada ,como é hoje, no meu tempo não existia ressonância magnética, não existia tomografia computadorizada, nada disso. Era estetoscópio, aparelhinho de pressão e olha, pulso e abre a língua, e olha... Hoje não, hoje se tem uma dor de cabeça, ressonância magnética, tomografia. Insegurança médica, você tem medo de processo. Agora vão abrir 2,5 mil novas vagas para Faculdade de Medicina, mas não tem residência médica. Como é que pode isso? Nós temos é que abrir a residência médica, não adianta ter médico, precisa ter médico bem formado. 80% dos advogados não exercem a profissão. Pega o diploma e toma bomba no Exame da Ordem. Medicina, o cara vai exercer. Eu me lembro do primeiro plantão que eu dei, residência médica de anestesia, aqui no Servidor, já médico, fazendo residência para anestesia. Tinha um colega, o mineirinho, então o Professor [ininteligível] era o preceptor, aí cirurgia, começamos, o mineirinho fala: “Professor, se cair a pressão?”, “Ah, você pegue [ininteligível] dilua dez, injete lentamente”, “Professor, se há arritmia?”, “Pega [ininteligível], passa [ininteligível]”, “Professor...”, e foi. Chegou na décima pergunta, “Professor, e se acontecer...?”, “Chama um médico, não é ?”. O cara já era médico. A quantidade de doenças idiopáticas ocasionadas pela intervenção, por despreparo. O sujeito faz uma colonoscopia... Um colega nosso, deputado. Faz uma colonoscopia, vem para São Paulo, barriga desse tamanho, perfuraram o intestino não perceberam. Aí opera, cirurgia de emergência, perde 30cm de intestino, ganha uma bolsa de colostomia. Não tinha nada. Chama-se doenças idiopáticas, ocasionadas pelo excesso de intervenção médica. Tem que operar tudo, tem que intervir tudo, tem que fazer tudo. Isso causa problema, porque as intervenções também causam problema. Eu fiz cirurgia de apêndice com 18 anos de idade, fazia cursinho para medicina aqui no Objetivo. Tive uma crise, fui operar do apêndice. Há uns dois, três anos atrás me senti mal, fui atendido no hospital. Aí o sujeito examinou, examinou, Blumberg positivo. Aperta não dói, a hora que solta dói, Blumberg positivo, peritonite. Vamos para mesa, apendicite aguda. Falei: “Qual é a janela mais próxima para eu fugir daqui?”. Já tinha operado há 30 anos, o cara queria me operar de novo o apêndice. Pode isso? Precisa ter residência médica. Não faltam médicos, eles são mal distribuídos e precisam resolver, resolutividade. Hoje é “ao”, ao especialista, ao exame, ao, é tudo ao. Não adianta. Nós precisamos é fazer mais residência médica. E nós vamos... Esperamos, em três semanas, apresentar o mais audacioso programa de carreira do médico da história de São Paulo. Médico que trabalhar conosco em tempo integral vai ser remunerado para valer aqui em São Paulo. Mas vai ter que se dedicar também para valer. Queremos ter o pessoal extremamente preparado. Eu quero agradecer aqui o Professor Giovanni Cerri, Diretor da Faculdade de Medicina da USP, fazendo um belíssimo trabalho de regionalização, ou seja, melhorando essa visão hierarquizada da saúde de atendimento primário, secundário e terciário. Nós avançamos, quando o Montoro assumiu umas 200 cidades de São Paulo não tinha um médico morando na cidade, nenhum, não existia nada. Aqui nós estamos entregando ambulâncias e vans. Contam, Beraldo, que lá em Silveiras, o prefeito era Oswaldo Cardoso, o Samuel deve conhecer lá, procure que está aí por São José. Oswaldo Cardoso era muito brincalhão e tal, [ininteligível] o trabalho de parto rápido, vários filhos. Multípara ela entra em trabalho de parto, vai à prefeitura para pegar a ambulância para ir dar a luz na Santa Casa de Cachoeira Paulista ou Cruzeiro. E aquela coisa de prefeitura, a ambulância saiu foi levar não sei quem, ninguém acha a ambulância e tal, ela não teve dúvida, entrou no gabinete do prefeito e falou: Prefeito, ai, ai... Ele falou: Meu? Meu não... O prefeito meio com a coincidência pesada estava apavorado, não é? Mas, o fato é que nós precisamos melhorar a resolutividade e hierarquizar o sistema. Essa é uma tarefa difícil, mas extremamente necessária. E a outra, ter coragem de dizer: Olha, está faltando dinheiro. Não tem prioridade, sem orçamento, é discurso, é só discurso. Precisa ter dinheiro para fazer as coisas andarem. E hospital o governo nós seguramos, hoje dois terços do financiamento dos nossos hospitais de OS é tudo dinheiro do Estado, dois terços. Os que têm teto. Agora, santas casas de misericórdia não tem o [ininteligível] governo atrás, então você vai fechando. Aí o que é que querem todas as santas casas? Virar tudo OS, ou seja, virar tudo chapa branca, tudo estatal. E é muito ruim a gente perder uma coisa que levou quatro séculos, a sociedade se organizando para manter aberto um hospital que não tem fim lucrativo, que não tem dono, não é do Governo e nem do provedor é da sociedade, para prestar serviço às pessoas, para ajudar a população que precisa. Quero também agradecer aos nossos deputados, grande parte aqui dos recursos são de emendas parlamentares, eu li ali. É impressionante o critério dos deputados, cem mil aqui, cinquenta mil ali, duzentos mil ali, duzentos e cinquenta mil... Então, o pessoal cuidadoso na aplicação dos recursos públicos. E deixar um abraço muito carinhoso para todos, governos municipais e nosso parceiros dos hospitais, cada um na sua cidade procurando fazer a diferença. Menotti del Picchia em um poema muito bonito, Gonzaga, chamado “Juca Mulato”, ele dizia que a própria dor na terra natal dói menos. Porque você está perto das pessoas queridas, dos familiares, não virou número nas grandes cidades, nos grandes hospitais. Então, perto da família, melhorar a resolutividade. Claro que há casos graves que precisam ser transferidos, ser atendidos em hospitais quaternários, hospitais de mais alta complexidade.

Muito obrigado a todos.